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As histórias de Paula Rego e Adriana Varejão têm muitas camadas, silêncios e subtilezas, pele e carne

As histórias de Paula Rego e Adriana Varejão têm muitas camadas, silêncios e subtilezas, pele e carne

É um espaço pequeno (como quase todos os outros) e discreto (muito mais do que todos os outros). Nele não há pintura nem escultura mais ou menos exuberante, mas para quem tiver tempo para olhar, uma e outra vez, para as obras expostas, é bem provável que de lá saia com a sensação de que assistiu a uma conversa entre duas artistas que, com as mesmas ferramentas e formas muito diferentes de as usar, falam de mulheres, das suas fragilidades e forças, da determinação que as move, mesmo quando não se dão a ver.

Nas gravuras e litografias quase exclusivamente a preto e branco de “Rituais de limpeza”, um dos 13 núcleos da exposição que reúne no Centro de Arte Moderna (CAM) da Fundação Gulbenkian, em Lisboa, 80 obras de Paula Rego e Adriana Varejão, a primeira apresenta uma série de mulheres a consumar abortos clandestinamente, ao passo que a segunda nos leva a espaços vazios, aparentemente assépticos, onde a presença humana se adivinha no que ficou para trás: fluidos corporais, cabelos e outros restos.

O que aproxima a série Sem título (1999) — que aqui vemos na sua versão democratizada do múltiplo, feita com a mesma indignação com que Rego assistiu, em 1998, ao resultado do primeiro referendo em Portugal sobre a legalização da interrupção voluntária da gravidez — de Dona branca (2009) e de O convidado (2009), de Varejão, é a violência. E neste caso, como em tantos outros na obra destas duas artistas, a que se comete contra a mulher.

No caso de Adriana Varejão (Rio de Janeiro, 1964), vemos o sangue sem ver um corpo; no de Paula Rego (Lisboa, 1935 – Londres, 2022), temos o corpo, mas não o sangue. “A mãe nunca quis mostrar o sangue nesta série — na pintura que faz com o mesmo tema também não há, nunca”, diz Nick Willing, o filho da pintora portuguesa, em visita à exposição. “Ela dizia sempre que a sugestão de uma coisa tinha muitas vezes mais poder do que a própria coisa.”

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16 Abr 2025

por: Lucinda Canelas

Público

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