Pular para conteúdo

Exposições em Nova York, Rio e Londres sintetizam a arte cheia de ‘rigor e beleza’ de Beatriz Milhazes

Exposições em Nova York, Rio e Londres sintetizam a arte cheia de ‘rigor e beleza’ de Beatriz Milhazes

Museu Guggenheim, White Cube e Casa Roberto Marinho são as instituições que exploram distintos elementos da obra da artista brasileira

 

Tomadas ao pé da letra, as palavras “rigor” e “beleza” não soam como uma combinação das mais harmoniosas. Uma indica austeridade, rigidez; a outra, a qualidade ou virtude do que é belo. Na obra de Beatriz Milhazes, no entanto, apontam para a essência de sua produção artística e formam o inspirado título da exposição que o Guggenheim, em Nova York, dedica à artista brasileira até 7 de setembro.

A mostra reúne pinturas e obras sobre papel feitas por Milhazes entre 1995 e 2023, pertencentes ao acervo do museu, além de doações de um colecionador adquiridas de sua primeira galeria em Nova York, a Edward Thorp. Para Milhazes, “Rigor e Beleza” reflete bem a “união de questões variadas” que ela vem trabalhando ao longo de mais de quatro décadas.

“É uma produção que combina a exuberância visual do Rio de Janeiro, a influência da arte popular e indígena, e uma busca contínua por uma linguagem abstrata que seja ao mesmo tempo estruturada e poética”, diz. “A cidade em si tem uma beleza natural que é extremamente profunda, que tem uma relação quase espiritual com a convivência urbana.”

“Rigor e Beleza” faz parte de uma série da instituição intitulada “Coleção em Foco”, que destaca obras do acervo do Museu Guggenheim. A mostra dedicada a Beatriz Milhazes é a segunda edição dessa série e apresenta, entre outros, 5 pinturas da artista do acervo do museu, incluindo “Santa Cruz” (1995), “In Albis” (1995-96), “As Quatro Estações” (1997), “O Cravo e a Rosa” (2000) e “Paisagem Carioca” (2000).

Em entrevista ao Valor, a curadora da exposição, Geaninne Gutiérrez-Guimarães, afirma que Beatriz Milhazes celebra, como artista contemporânea, sua herança cultural e identidade brasileira por meio da abstração, de um complexo conjunto de obras, que abrange escultura, colagem, gravura, têxteis, arte pública e, especialmente, pintura. A artista se inspira profundamente, prossegue a curadora, nas diversas histórias e tradições do Brasil.

“Juntamente com suas abstrações vibrantes e coloridas, que mesclam motivos culturais brasileiros com influências modernistas e capturam uma fusão dinâmica de estéticas globais e locais, sua obra reflete um estilo distintamente brasileiro, porém com ressonância global, que teve um impacto duradouro em escala nacional e internacional”, diz.

Rigor e beleza não são um duo estranho ao glossário artístico de Milhazes. Ela enfatiza que sua grande missão sempre foi “introduzir algo novo para o pensamento da arte abstrata” e considera que isso só foi possível graças ao rigor que aplica em sua rotina de ateliê. “A disciplina para mim é fundamental. Eu me sinto relaxada quando tenho uma rotina de ateliê. “A disciplina para mim é fundamental. Eu me sinto relaxada quando tenho uma rotina, uma ordem”, diz. Para ela, a geometria funciona como um eixo organizador de sua criatividade. Citando Iwona Blazwick, ex-diretora da Whitechapel Art Gallery, ela diz: “A geometria organiza a minha imaginação”.

Ainda que seu trabalho esteja profundamente ligado à racionalidade, Milhazes reconhece a importância da emoção em sua obra. “Tenho todo esse lado emocional mesmo, minha história, memória, crescimento, família tudo isso trago para meu trabalho.” A artista menciona também sua curiosidade por “coletar imagens” e referências formais em seu cotidiano, e referências formais em seu cotidiano, especialmente ligadas à geometria e à natureza, como as variações de verde nas plantas ou as texturas da vegetação.

Milhazes comenta ainda que a exposição no Guggenheim marca seu reencontro com obras dos anos 1990 e início dos anos 2000 que abriram portas para sua carreira internacional

“Foi como reencontrar velhos amigos reencontrar minha história em Nova York.” Algumas das obras estão sendo mostradas pela primeira vez. A artista vê nelas a transição da figuração para a abstração, acompanhada por um aumento na expressividade. “Nos anos 1990, os trabalhos tinham uma certa melancolia, mas hoje há mais força cromática.”

Num ano movimentado, Milhazes adianta informações sobre futuras exposições, como a mostra “Pintura Nômade”, em setembro, no Rio. Durante a Bienal de Veneza de 2023, Milhazes havia apresentado o projeto “Coreto da Praça”, idealizado em parceria com o escritório da arquiteta Lia Siqueira. Diretor da Casa Roberto Marinho, Lauro Cavalcanti teve a ideia de remontá-lo parcialmente numa das salas mais amplas da instituição carioca.

“Conversa vai, conversa vem, a arquitetura foi ganhando um contorno de importância dentro do projeto. O próprio título é uma alusão ao conceito de mural de nomad [mural de nomade, do arquiteto suíço] Le Corbusier, algo como tapeçarias que funcionam como decorações transportáveis. Mas também se refere ao próprio estilo da Beatriz, que é um estilo que é um estilo que passeia pelas correntes, pelas tendências, não se filia cegamente a nenhuma”, diz.

Em novembro, será a vez da White Cube, de Londres, realizar sua terceira exposição com Beatriz Milhazes. A galeria representa a brasileira desde 2015 e já realizou mostras na White Cube Hong Kong e na White Cube Bermondsey em Londres. Para a próxima exposição, Milhazes está trabalhando em uma nova instalação e também apresentará uma série de pinturas e colagens. Segundo Susan May, diretora artística global da galeria, as obras serão uma evolução das pinturas exibidas na Bienal de Veneza.

May destaca que Beatriz possui uma extraordinária amplitude como artista, da pintura, escultura e colagem à gravura, instalação e tapeçaria. “Para uma artista, ser talentosa em qualquer uma dessas disciplinas seria impressionante, mas ser capaz de transitar com tanta habilidade entre todas elas simultaneamente, sem perder a singularidade de sua arte, é exemplar. Ela desenvolveu uma linguagem visual específica que explora as possibilidades da abstração e continua a impulsionar e inovar essa linguagem a cada novo conjunto de obras.”

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Ler matéria completa

11 Jun 2025

por: Eduardo Simões

Valor Econômico

pdf