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Marina Rheingantz: Mirage

Marina Rheingantz: Mirage

Escute o clima

Pedro Köberle

As pinturas de Marina Rheingantz são atmosferas túrbidas. Sua abstração única opera numa região de massas de tinta, pinceladas rítmicas, enxames de gestos curtos, impastos e manchas de cor que não se deixam transformar em imagem. Seu manejo da matéria fica sempre num limiar: ligeiramente aquém ou além de um referente reconhecível.

É praticamente inevitável, nas pinturas expostas no Musée des Beaux-Arts de Nîmes, estabelecer analogias com paisagens e elementos orgânicos – uma característica já amplamente observada na obra de Rheingantz. Quando sua pincelada é vaporosa, rarefeita ou etérea, o que vem à mente são nuvens; ao permitir que manchas de óleo se coagulem na superfície da tela ou do linho, surgem alusões a corpos minerais ou viscerais. Quando cortinas de óleo espesso lavam a tela de cima a baixo, começa a chover. No entanto, reduzir esses procedimentos processuais e abstratos a mero simulacro de paisagem não é suficiente.

Se ater a esses paralelismos analógicos implicaria ignorar as intenções pictóricas em nome de uma abordagem da arte abstrata assombrada pela expectativa de mimese. Não é que os trabalhos de Rheingantz existam num plano puramente ótico. Pelo contrário: eles provocam uma interação física com o espaço expansivo que criam. Desencadeiam estímulos sensoriais conforme nos aproximamos ou nos afastamos da superfície. Dá vontade de tocar as crostas de matéria acumulada, de cheirá-las. De ouvir o som que o ar produziria dentro da moldura. Esse campo de sensações ambiente se tornou o traço distintivo das obras mais recentes de Rheingantz.

Essa configuração é melhor compreendida se enfatizarmos o processo em vez da imagem – a aquisição em vez da identificação da forma. Tecidos que se regeneram, ocorrências metabólicas, eventos atmosféricos, evaporação, petrificação e sedimentação são todos processos, não coisas. Podemos pensar nas pinturas de Rheingantz como “lugares”, no sentido de que são concentrações locais de coordenadas espaciais. Lugares são entidades geográfica e territorialmente delimitadas, “lugares de eventos sentidos”, como coloca Susanne Langer (1). Uma pintura é uma coisa parecida – uma estrutura de sentimento emoldurada.

A natureza processual do trabalho de Rheingantz resulta na formação de lugares concretos em vez de espaços abstratos. Talvez isso explique por que esses trabalhos se parecem mais com paisagens do que com abstração “pura”. Eles evocam uma experiência física ou interpelam os sentidos; revelam a dinâmica do lugar sem representá-lo. Paisagens não exigem que conheçamos os nomes ou as identidades de tudo o que está contido nelas, mas que enxerguemos as relações que as formam.

 

O ritmo interno das composições da artista — o andamento e a regularidade com que padrões surgem e se desfazem — parece orgânico, como se essas camadas de tinta fossem respostas naturais às condições do ambiente, como o crescimento do musgo, a transformação do interior de uma árvore em casca ou a sedimentação de minerais em diferentes estratos. Como todas essas mudanças materiais, as pinturas de Rheingantz não podem ser desvinculadas da duração temporal.

Ironicamente, o aspecto espontâneo e quase não-solicitado dessas pinturas é resultado de um trabalho considerável. A artista abandona, pelo menos em parte, a intenção compositiva à lógica fluida da gestualidade: seus trabalhos não seguem um esquema e não são a representação visual de um projeto intelectual: são os lugares onde ela faz uma pausa ao longo de uma trilha. Tudo isso é fruto da abordagem meticulosa da artista diante dos acidentes da superfície, da cor e da organização espacial.

Numa breve nota biográfica, Marina Rheingantz nasceu em Araraquara, a cerca de quarenta minutos de carro da minha São Carlos natal. A região é em grande parte plana e seca, e coalhada de monoculturas, com poucos remanescentes de cerrado. Vista do alto, a região poderia se assemelhar a uma pintura da artista: extensões de terra árida pontuadas por resquícios de vegetação, algumas manchas do bioma original que se recusam a desaparecer completamente na paisagem vazia, rios e córregos reduzidos a uma fração do que já foram desenhando garatujas e curvas tênues na terra. É um ambiente que resiste à romantização, mas que guarda uma graça persistente quando a luz incide do jeito certo, quando o céu se tinge das cores cambiantes da atmosfera. Não que isso tenha qualquer importância para quem não sabe desses detalhes nem que deva mudar o jeito como se olha para essas pinturas. Nem estou dizendo que o trabalho de Rheingantz seja, no fim das contas, uma ilustração da sua terra natal. Mas assim como um lugar está sempre mudando ou um ecossistema corre o risco de desaparecer, assim como a luz batendo sobre um pedaço de terra marrom-avermelhada vai seguir adiante e iluminar outros objetos e produzir outros brilhos, o trabalho de Marina Rheingantz se ocupa das nuances e dos acidentes de tudo o que está em processo contínuo, mesmo que nem sempre visível ou de forma permanente.

(1)  Susanne Langer, Mind: an Essay on Human Feeling. Baltimore: Johns Hopkins University Press, 1967, p. 194

30 Abr – 05 Out 2025

Vistas da exposição