“Nem todo viandante anda estradas – Da humanidade como prática”. Inspirada em poema de Conceição Evaristo, a 36ª Bienal de São Paulo – que abriu ao público ontem – parte da escuta e da travessia como metáforas de um tempo em que humanidade e natureza precisam ser repensadas em conjunto. A curadoria, guiada pela ideia dos fluxos migratórios das aves como mapas simbólicos, reúne artistas de todos os continentes. Nesse cenário, a presença da artista Pélagie Gbaguidi soa quase inevitável. Sua obra é atravessada por deslocamentos, pela diáspora e por uma arqueologia afetiva das memórias silenciadas da história.
Nascida em Dakar, de família beninense, e radicada em Bruxelas, Gbaguidi construiu uma carreira internacional que inclui exposições em instituições de peso na Europa e nas Américas. Este ano, além da Bienal paulistana, inaugura um grande painel no Fralin Museum, da Universidade da Virgínia, e participa da Bienal de Istambul. Mas é no Brasil que seu trabalho encontra um eco mais profundo: aqui, a artista vê um terreno fértil onde memórias afro-indígenas permanecem vivas, ainda que invisibilizadas.
Sua obra toma forma como dança visual, onde traços, símbolos e gestos compõem narrativas em movimento. Mais do que pintura, é uma experiência sensorial e política. “Minha prática é reunir nossa história, nosso passado, nossas memórias e a transformação social que precisamos encarar hoje”, afirmou a artista em entrevista à Coluna. Para ela, não é possível enfrentar os dilemas contemporâneos sem revisitar o que foi ignorado. “Meu trabalho não é sobre pessoas negras. É sobre feridas. Feridas que dizem respeito a todos nós, porque o trauma coletivo atravessa toda a sociedade.”
07 Set 2025
por: Alice Ferraz
O Estado de São Paulo