Sua obra pesquisa os vestígios do cotidiano e as possibilidades da arte — revelando um artista em constante expansão de linguagem
“Se o colonialismo impõe uma lógica extrativista e hierárquica, minha prática busca interrogar essas dinâmicas, ao deslocar os objetos de seus âmbitos de consumo e redefinir suas materialidades e significados.” É desse modo que Antonio Tarsis demarca sua distinta produção artística, atravessada pela autodidaxia em resposta à falta de oportunidades, pela reinvenção dos materiais e pela investigação de relações sociais crivadas da herança colonial brasileira. Crescendo em Salvador, o artista encontrou na cidade um vasto repertório de histórias e formas que passaram a integrar sua pesquisa. “Minha relação com a arte meio que nasceu na rua. Cresci distante do circuito formal, mas imerso em uma cultura muito forte”, reflete. Seja com a paciente e cuidadosa sobreposição de materiais ou por meio das relações possíveis entre seu afastamento e clivagem, seu trabalho não se limita a um espaço de representação, mas de transgressão, de resgate e de ampliação de significados. Mobilizando um vocabulário que remonta a consagradas correntes artísticas do último século, como os grandes campos de cor e texturas do expressionismo abstrato, os procedimentos de assemblagem do neodadaísmo ou as composições da abstração geométrica, Tarsis apropria-se do descarte de embalagens e superfícies gráficas industrializadas para compor uma experiência visual singular
Entre 2013 e 2015, Antonio Tarsis começou a criar obras com caixas de fósforos, abordando temascomo memória, periferia e referências afro-indígenas no contexto urbano de Salvador. Nesse período, também explorou o autorretrato fotográfico como forma de investigar seu corpo e sua identidade afro-diaspórica. Ao longo dos anos, o processo de coleta de materiais – ato definidor de sua prática – transformou-se de uma lida com a precariedade social para uma pesquisa sofisticada sobre história e circulação de objetos. “A relação com os materiais se expandiu, mas o processo de coleta ainda é central. Hoje, existe um deslocamento do significado dos materiais, um diálogo entre sua história, sua estrutura física e o espaço que ocupam na composição.” Trabalhando atualmente em Londres, a colagem continua sendo um procedimento essencial em sua obra, mas a exploração de novos componentes e procedimentos se amplia. “O ritmo e a composição são elementos cada vez mais evidentes, especialmente na forma como incorporo vapor e som.”
12 Jun 2025
por: Leonardo Nones
Harper's Bazaar Brasil