O ponteiro avança acelerado, correndo todo o círculo em frente às letras que formam ali as palavras “passa tempo”, ou só “passatempo”, no lugar dos números. O duplo sentido na obra de Rochelle Costi, artista que morreu atropelada em São Paulo três anos atrás, ganha ares mais perversos numa cidade que também se viu mergulhada em tragédia em questão de instantes.
Esse relógio às avessas instalado na fachada do Museu do Trabalho, em Porto Alegre, lugar que ficou debaixo d’água nas enchentes do ano passado, ilustra bem a ideia que rege esta Bienal do Mercosul, recém-aberta na capital gaúcha depois de quase um ano de atraso por causa das chuvas que mataram dezenas de pessoas e destruíram boa parte da cidade —entre as vítimas, também os acervos de alguns de seus museus.
O clima, num calor tórrido em pleno outono, é de reconstrução, a luta contra um ambiente hostil causado em grande parte por nossos excessos. Na visão de Raphael Fonseca, que comanda esta edição de uma das mostras mais tradicionais do calendário latino-americano, estamos à beira do abismo, em ponto de ebulição. “Estalo”, não por acaso, é o nome da exposição. Tudo está por um triz e pode vir abaixo num estalar de dedos, na velocidade de uma faísca.
17 Abr 2025
por: Silas Martí
Folha de S. Paulo