Com obras de mais de 20 artistas, do Brasil, Angola, Cuba e Uruguai, coletiva inaugurada neste sábado (31) tem curadoria de Marcelo Campos e Amanda Bonan, do Museu de Arte do Rio, e do pesquisador baiano Tiganá Santana
Termo utilizado para designar línguas e outros saberes dos povos da África Central, banto também serviu para identificar, de forma genérica, cerca de 75% dos escravizados trazidos para o Brasil, entre os séculos XVI e XIX. Por aqui e em outros países das Américas, a cultura banto fundamentou e moldou a identidade local, amalgamada com conhecimentos e tradições dos povos originários.
A partir da permanência desta cultura, viva e em transformação, o Museu de Arte do Rio (MAR) reuniu cerca de 50 obras, a maior parte comissionada, de mais de 20 artistas, brasileiros e de países como Angola, Cuba e Uruguai, na coletiva “Nossa vida bantu”, principal exposição deste ano na instituição, que foi inaugurada ontem. Assinada pelos curadores do museu, Marcelo Campos e Amanda Bonan, e o curador convidado Tiganá Santana, a mostra aposta em instalações e ambientes imersivos, reforçando o caráter contemporâneo das expressões escolhidas por equipe e artistas.
— Convidamos artistas que já lidam e renovam estas tradições, como André Vargas, Eustáquio Neves, Cipriano, Castiel Vitorino Brasileiro e Luana Vitra, e abarcando também regiões que receberam muito essa influência, como Rio, Minas, Espírito Santo, Pernambuco e Paraíba — explica Campos, curador-chefe do MAR. — E, nas conversas com Tiganá, sempre pensamos na proposta de mergulhar numa história, numa subjetividade, em ambientes criados pelos artistas, diferente de um modelo de contemplação ocidental no qual se fica diante de obras penduradas na parede branca. Como ela substituiu “Funk” (inaugurada em 2023), que era muito vibrante, convidamos para um olhar interior, com um número menor de trabalhos, mas em escalas maiores.
Com projeto expográfico de Stella Tennenbaum e Pedro Varella, as duas salas do terceiro andar do museu foram revestidas, do chão às paredes, de palha de coco, criando a impressão de continuidade e de fundos infinitos, com os ângulos do piso abaulados.
— É uma das nossas mostras com o maior número de obras comissionadas, foi uma oportunidade importante de poder trazer os artistas para criarem e pensarem a exposição com a curadoria — comenta Amanda Bonan. — Pensamos em ambiente mais labiríntico, mais circular, na primeira sala, e o segundo mais aberto, como uma clareira.
Filósofo, cantor, compositor, poeta e artista visual, Tiganá Santana traduziu, pela Cobogó, no ano passado, “O livro africano sem título: cosmologia africana dos Bantu-Kongo”, escrito em 1980 pelo pesquisador congolês Kimbwandènde Kia Bunseki Fu-Kiau (1934 – 2013), e que serviu de base para a tese de doutorado do soteropolitano na USP. A pesquisa também orientou parte da concepção da exposição, ao ser convidado pelo museu a se juntar à equipe curatorial.
— A partir do cosmograma trazido pelo Fu-Kiau, outras ligações se estabeleceram, com as espiritualidades banto no Brasil, com as formas de estar e ocupar o mundo com os nossos corpos — destaca Tiganá. — A dimensão de complexidade, os pensares, as existências, as poéticas relacionados a este universo estariam no centro, e aos poucos fomos construindo os caminhos da exposição. Esse trajeto estético foi construído junto aos artistas, que, de alguma forma, já expressavam sua relação com esses modos de existir.
Na primeira sala, um conjunto de trabalhos de André Vargas, que inclui vídeo e pintura em tecido, tem ao centro a instalação “Vó Kalunga, Pai Café”, com 120 canecas de ágata branca preenchidas com café e água do Atlântico, formando o desenho de um porão de navio tumbeiro.
— Kalunga é uma palavra banto que, entre outras coisas, designa mar. A obra faz referência à travessia dos negros escravizados, mas também às canecas que servem o café e a água que se dá aos Pretos Velhos, para construir essa imagem de oferenda — detalha Vargas. — É, também, homenagem a quem criou essa história de resistência e produção de cultura em guerrilha, dos escravizados no Brasil.
Na sala seguinte, telas do cubano José Bedia e do uruguaio Pedro Figari (1861-1938), apontando a influência banto para além das fronteiras do Brasil, dividem espaço com duas pinturas em grande escala de Márcia Falcão, da série “Capoeira em paleta alta”.
— Nos meus trabalhos inspirados no movimento, como os das séries da capoeira, da ioga e do passinho, consigo explorar um extrapolamento anatômico, pintando esses vários corpos que estão jogando na roda como um aglomerado — pontua Márcia. — Muita gente aponta isso como uma passagem para a abstração, mas vejo mais como um caminho a uma liberdade da própria pintura. Às vezes, é um emaranhado de pinceladas que tem um pé, e o cérebro automaticamente identifica como corpo.
Na mesma sala, Aline Motta apresenta a obra “Escravos de Jó”, com imagens projetadas no chão se movimentando em círculos, ao som de uma trilha que remete à cantiga infantil, nas vozes da moçambicana Lenna Baúle e do congolês Yannick Delass. Entre imagens, palavras e ícones retirados de anúncios de escravizados fugitivos publicados em jornais da época e de calçados que se alternam, como na brincadeira — entre eles, pés dos antigos Bamba e Conga, palavras com origem no quimbundo.
— Pensando nessa música no sentido da escravidão, as coisas tomam outras dimensões, como os guerreiros que fazem “zigue-zigue-zague”, como uma estratégia de fuga — ressalta Aline. — Ao fazer alguns trabalhos, eu penso: “Se fosse criança, o que gostaria de ver”? É algo para aproximar da arte, com referências que você pode pegar ou não.
Outra dimensão destacada na exposição é a criação de uma nova cultura a partir do encontro entre os saberes bantos e dos povos originários das terras que os receberam. A junção é representada na rampa de entrada da exposição, que foi pintada, de um lado, pelo coletivo Mahku, de artistas indígenas Huni Kuin, do Acre, e, de outro, do coletivo angolano Verkron. Nas duas cosmologias, representações onde tempos e planos como os da vida e da morte não se separam.
— Os dois trabalhos fazem alusão a esse mundo em que, ao mesmo tempo, é material e não material — aponta Hemak, do coletivo Verkron, que finalizava anteontem com o colega Mac a pintura na rampa. — Pensamos nessa rampa como um portal, para o público acessar um outro tempo, menos mecânico, ocidentalizado.
03 Jun 2025
por: Nelson Gobbi
O Globo